Lentes da inquisição
Ontem, ao voltar do trabalho, me sentei no ônibus ao lado de
uma menina com um bebê no colo. Logo a imaginei como a irmã do bebê, mas creio
que estava equivocada.
Tudo indicava que ela era mãe da criança. Uma jovem de quem
sabe seus catorze ou quinze anos e que gostava de escutar funk no celular. Séria.
Dormia, e quando seu filho ameaçava resmungar, lhe oferecia uma mamadeira na
boca.
No mesmo instante meus olhos já estavam vestidos com as
lentes da inquisição:
Ela não parecia feliz. Logo imaginei ser uma gravidez
indesejada. Bem provavelmente ela era uma mãe solteira, não tinha aliança nos
dedos. Um feto carregando outro. Não deveria ter um filho nos braços, tão nova.
Fosse o tempo de minha avó seria uma boneca.
Julguei.
Hoje, um senhor puxou assunto comigo enquanto esperava meu
ônibus.
Começou a contar de sua vida. Que agora, aos sessenta anos,
se tornou avô e pai novamente. Ganhou um filhinho de um ”rala e rola” que teve
com uma moça de 22 anos. Em janeiro vão se casar.
Está muito feliz, muito mesmo, embora a família ache que ele
ficou louco. Embora a moça, mãe de seu mais novo filho, se sinta insegura com a
mudança.
E lá estava ela, a lente da inquisição, que foi parar no meu
ouvido como se fosse um filtro, como se junto com as palavras do senhor,
viessem vermes que apodrecem seu conteúdo, achando aquilo um tanto quanto
absurdo.
E por que, meu Deus!?
Será que eu sou melhor que isso? Claro que não!
Se ele está feliz, quem é o mundo para ser contra? E quem
sou eu?
Não existe melhor e nem pior. Existem escolhas. Existem
escapes. Existem acasos, e suas consequências.
E a felicidade, bem, esta pode estar em qualquer uma dessas situações,
só depende da lente que você usa para enxergá-las.
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