Era de manhã, para ser mais precisa, oito horas. E eu estava conhecendo uma nova praia, em uma nova cidade. Estacionei meu carro e resolvi ir andando por um caminho no qual as pessoas usam para se exercitar e, é claro, para ter acesso às praias e a um maravilhoso farol. Acontece que nem andei dez metros, e já percebi um sujeito estranho vindo em minha direção e dirigindo uma bicicleta. Sei que não é certo a gente julgar alguém pelas aparências, até me senti uma pessoa má por ter feito isso, porém, eu era uma moça sozinha naquele momento, e tive que tomar minhas precauções, evitando o contato com aquela ele e voltando por outro caminho. Ele foi indo, e de repente parou. Parou de andar porque bicicletas são mais velozes que pessoas, e esperou que eu o ultrapassasse. Resolvi entrar em um caminho que dava para a praia, onde havia pessoas e eu estaria mais "segura". Fui. Andei, andei e achei que tudo estava indo bem... Passei por algumas pessoas, por um moço que estava apreciando um cigarro ilegal aqui no Brasil, enquanto observava o mar. Olhei pra trás e lá estava ele, o meu perseguidor. Voltei, e parei do lado do moço do cigarro ilegal aqui no Brasil. Ele, que mais tarde me afirmou ter sentido a maldade no olhar do perseguidor, me perguntou, gentil: "Está tudo bem?". Disse que achava que não, que estava sendo seguida. Ele me convidou para ficar ali um pouco, até quem sabe o cara da bicicleta ir embora. Conversamos um pouco, trocamos alguma ideia. E em momento algum ele se sentiu impaciente em querer seguir seus planos para aquela quarta-feira ensolarada. Depois de um tempo, vimos que o perseguidor não queria sumir, então nós resolvemos sumir, ele me levou até o carro e nos despedimos.
Primeira reflexão:
poxa. Algumas pessoas na nossa vida simplesmente aparecem ao acaso, e levamos
delas apenas o nome, um instante e uma recordação boa. Anjos, talvez? Não sei.
Mas dormi pensando no bem que uma pessoa me fez apenas por estar ali, naquela hora
e lugar.
Segunda e última
reflexão: não sei qual o tipo de maldade planejada pelo perseguidor da
bicicleta. Talvez fosse me assaltar ou, quem sabe, algo pior que envolvesse a
minha vida ou "reputação" .
E pensei na roupa
que estava usando naquela manhã: uma blusa que amarrava no pescoço (sem
decotes) e uma saia jeans, e biquíni por baixo. Estaria, eu, provocando o moço
com a minha roupa? Não estava no direito de usar aquela roupa, naquela ocasião?
Ou seria necessário uma burca para ir à praia sem ser incomodada?
Onde estava o meu
direito de vestir a roupa que eu achava adequada na ocasião? Meu direito estava
escondido por trás da verdade que existem pessoas más, e que você, quer queira,
quer não, terá que evitar situações de perigo. Não concordo, não concordo mesmo
com isso. Nós, mulheres, ao longo da história já fomos mal vistas por andar
sozinhas e desacompanhadas nas ruas. Culturalmente, isso já foi superado
totalmente. Mas e na prática? Na prática, minha amiga, a verdade é que corremos
o risco de sermos bem vistas, mas bem vistas por pessoas do mal. Salve-se quem puder e viva os anjos da
guarda!