terça-feira, 4 de março de 2014

Lágrimas públicas

Choro de dor, machucado no dedo.
Choro de perda, de alguém que se foi.
Choro de riso, alegria sem fim.
Choro hormonal, motivos faltantes.
Chorar.
Deixar o rio da água correr,
Transformar em mangue.
Sentimento bruto sedimentado no corpo.


Hoje chorei. Chorei em público, mais precisamente em uma rodoviária. E confesso que a experiência é meio perturbadora.
O que acontece é que você se sente o centro das atenções, o alvo de todos os olhares. Chorava em meu canto, quieta, porém a vermelhidão no rosto não me deixava esconder.
Desde a moça que vende casquinha no quiosque até o senhor que estava prestes a embarcar: os olhares são carregados de sentimentos e vem com uma pergunta que não quer calar: " por que será que ela está chorando, coitada"..."deve ser algo bem ruim". Até recebi uma frase consoladora de um moço, que me disse: "Seja o que for, vai passar...". Quando eu li naqueles olhares essa segunda parte que dizia "deve ser algo bem ruim", comecei a me sentir um lixo. Sim, um lixo, indigna de minhas próprias lágrimas. Eu tinha um motivo, é claro, mas comparado a tantas outras coisas que poderiam ter se passado na cabeça de cada um que me viu, eu só estava sendo uma garotinha mimada. Poderia ter perdido um ente muito querido, poderia ter acabado de me despedir de um amigo que só veria daqui 5 anos. Quem sabe acabara de descobrir que tinha câncer. Ou então, um término de noivado inesperado!
Então disse para meu sentimento ir embora, ou esperar alguns minutos até chegar em casa, porque ali, em público, ele só seria aceito de fosse realmente grave. O resto que espere. Espere o travesseiro, o silêncio do quarto e da alma.

O fato é que as pessoas não estão acostumadas a demonstrar suas fraquezas. Só se tem vez para as coisas mais urgentes. Pequenos ajustes sentimentais não são bem-vindos no dia a dia das pessoas. 

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